Bem Vindo! - Cambuí / MG, Domingo, 05 de Setembro de 2010

Reflexão: A cruz e o sofrimento humano

A cruz e o sofrimento humano 

Certa vez, dentro de um ônibus, presenciei uma cena curiosa. Um rapaz, fervoroso adepto de certa religião cristã, tentava convencer um senhor a aceitar o “seu” Deus que, segundo o que dizia, é amor. Como a conversa o aborrecesse, o homem por fim perguntou: – Se seu Deus é tão amoroso assim, porque Ele precisou sacrificar seu próprio Filho numa cruz para reconciliar-se com os homens? O rapaz se calou. Não tinha resposta. Desistiu de seu intento e mudou-se imediatamente de lugar.           

Qual o significado da fé cristã na cruz? Diante da atitude expressa em certas práticas religiosas, impõe-se – como ocorria àquele senhor – a convicção de que a fé cristã na cruz se baseia na imagem de um Deus que, em sua justiça intransigente, exige o sacrifício de um ser humano, o sacrifício do próprio Filho. Muitos veem a cruz de Cristo – e, consequentemente, sua própria cruz – como um castigo imposto por um Deus tirano e cruel, ávido por sangue e sofrimento. Aterrorizados, viram as costas a uma justiça que torna implausível a mensagem do amor.           

Ainda que muito conhecida, esta é uma visão errada. Na Bíblia, a cruz não é entendida como castigo. É a expressão da radicalidade de um amor que se entrega sem reservas e de uma vida que é totalmente vivida para os outros. Não é uma pena estabelecida de antemão. É consequência de um amor que, mesmo diante da morte, preferiu manter-se fiel a si mesmo e às suas opções. É sinal de uma vida vivida em plenitude. Afinal, se não há um motivo pelo qual valha a pena morrer, também a vida não vale a pena.           

Mas o que a cruz tem a dizer sobre o mistério do sofrimento humano? Ela, sem dúvida, não traz explicações fáceis nem soluções mágicas para ele. Mas, a despeito disso, mostra-nos que Deus se importa com o sofrimento humano – tanto que faz Ele mesmo esta experiência. Deus sofreu no seu Filho oferecido no patíbulo da cruz e sofre ainda nos inúmeros crucificados da história: homens e mulheres curvados sob o peso da miséria, da fome e da injustiça social. Ele quis se identificar com os pequenos e um dia nos julgará pelo que fizemos por eles (cf. Mt 26).           

Deus não está alheio ao nosso sofrimento. Não está encerrado na solidão de sua perfeição infinita. Antes, prefere sofrer conosco e ensinar-nos o caminho do amor. E. Wiesel (Nobel da Paz em 1986), ao relatar suas experiências num campo de concentração, conta que a SS enforcou dois homens judeus e um jovem diante de todos os internos do campo. Os homens morreram rapidamente, mas a agonia do jovem durou meia hora. Alguém, atrás dele, perguntava: “Onde está Deus?” E prossegue: “Quando, depois de longo tempo, o jovem continuava sofrendo, dependurado pelo laço, ouvi outra vez o homem dizer: ‘Onde está Deus, agora?’ E em mim escutei a resposta: ‘Onde está? – Aqui... Está ali, dependurado no patíbulo...’” (E. Wiesel, Night, 1969, pp. 75-76).           

Certos de que a cruz é a expressão da compaixão de um Deus que vem continuamente ao encontro de nossa pobreza, digamos, confiantes, com toda a Igreja: “Senhor Jesus, nós vos adoramos e vos bendizemos porque pela vossa santa cruz remistes o mundo”.  

Pe. Elton C. Ribeiro